quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A Verdadeira Independência Um Dia Há de Chegar 

Por Hélio Coelho



I


           No dia 7 de setembro de l978, em plena ditadura militar e civil, em atenção ao corajoso convite feito pela Professora Diva Abreu Barbosa e pelo jornalista Aluysio Barbosa, publiquei na Folha da Manhã o artigo HISTÓRIA E ESTÓRIAS..., apresentando uma visão crítica do nosso  processo de independência política como contraponto às fantasiosas comemorações de então. Ao longo desses 34 anos, fiz alguns ajustes ditados pelas circunstâncias bem como pela necessidade de clarear algumas idéias. Desde então, alimento a vontade de transformar aquele artigo num ensaio com maior densidade teórica e de maiores desdobramentos na narrativa dos acontecimentos que dão sentido a esse processo. Enquanto isso não se realiza,  creio que os elementos centrais da análise que venho fazendo continuam válidos como convite à reflexão sobre a importância do conhecimento de nossa História como instrumento para a prática da Cidadania e do saudável Patriotismo como compromisso e engajamento  na construção de um Brasil mais justo, livre, soberano e feliz para tod@s.


II


         Se analisarmos bem, com espírito crítico e base científica, observaremos que a grande constante em toda a história do Brasil é a crônica situação de dependência. O que tem variado, historicamente falando, é o grau dessa dependência e a forma de nossa inserção nos quadros desse processo. Assim é que podemos dizer que ela se expressa com maior ou menor intensidade dependendo dos fatores internos e da dinâmica do sistema capitalista internacional. No momento, há que se ressaltar, temos desfrutado de maior autonomia  e com um certo protagonismo que dá visibilidade ao amadurecimento de nossa personalidade internacional. No entanto, as relações ainda são assimétricas, mais para uma relativa autonomia nos negócios do que para uma verdadeira situação de independência enquanto libertação pra valer!
Tal situação de dependência vem, há séculos, comprometendo seriamente as possibilidades de nossa afirmação e desenvolvimento enquanto Povo, enquanto Nação. Ainda agora, apesar da propaganda em contrário, continuamos assistindo revoltados, apreensivos e indignados a obsessão pelo superávit primário como “dever de casa” imposto pelos credores internacionais e as famigeradas negociações internacionais, cujas conseqüências sempre foram terríveis para o povo trabalhador brasileiro e para a soberania nacional. Em outras palavras, continuamos dependentes, inebriados pela ilusão dos neons coloridos e pelo burburinho espetacular dos shoppingcenters.  E tem mais: todos sabemos que as empresas multinacionais continuam sugando as nossas riquezas e produzindo relações desequilibradas naquilo que Milton Santos chamou de “globalitarismo”, numa modernização que apesar de alguns avanços sociais, impõe a permanência de elevados indicadores de pobreza, mal estar e sofrimento sobretudo para as camadas populares de nossa sociedade. Povo sofrido pelo desemprego, pela fome, pelos baixos salários, pela falta de moradia e por tantas carências geradas por esse modelo de capitalismo perverso, predador do meio ambiente e tão selvagem que, com sua fúria tributária impede a plena expansão do próprio empresário nacional que se vê humilhado pelas “benesses” concedidas aos que vêm de fora. Capetalismo!!!
Não podemos e não devemos nos iludir em relação a nossa dura realidade. Não podemos confundir desenvolvimento pleno, sustentável, com crescimento econômico mascarado por aquilo que chamamos de “modernização conservadora” que se renova no movimento das relações advindas da globalização autoritária. Somos parte integrante de uma das áreas mais exploradas do mundo, ou seja, América Latina, terceiro mundo. Conforme escreveu Galeano, há mais de quinhentos anos que as nossas veias vêm sendo abertas pelos vampiros estrangeiros e o nosso sangue transferido para os centros do sistema capitalista. Nosso sangue alimenta e revigora os países ricos, enquanto nós crescemos enfraquecidos, raquíticos, subnutridos. É sempre oportuno dizer que é muito importante não termos uma falsa idéia do que fomos e do que realmente somos. Sem ufanismo lírico e sem negativismo pessimista, temos o dever de assumir uma atitude crítica diante da realidade, pois só se pode transformar para melhor aquilo que se conhece bem e corretamente. O perigo da dominação ideológica consiste exatamente nisso: o dominado/alienado, privado da consciência crítica, não consegue compreender/perceber a realidade como ela é. Por isso, além de tornar-se objeto de manipulação, chega a beijar a mão do próprio dominador. Assim, o sistema se reproduz.
Sei que não é fácil adotar uma atitude pautada por essa consciência crítica, uma vez que o próprio ensino da História do Brasil encarregou-se de, por muitos anos, mascarar as dimensões da verdadeira História. Assim é que a história oficial está cheia de mitos deformadores, sendo apresentada sempre como uma sucessão de episódios, “vultos brilhantes” e um rosário de datas para decorar. Só recentemente estão surgindo alguns livros didáticos que colocam as coisas nos seus devidos lugares. No mais das vezes, a história acaba se tornando caudatária da “formação moral e cívica” que mais interessar a uma determinada estrutura de poder. Os anos de autoritarismo ostensivo vividos recentemente deixaram amarga herança nesse sentido.
É fácil constatar como as pessoas, mesmo depois de vários anos de estudo, só conseguiram fixar “grandes momentos” marcados pela ação de “grandes vultos”, reproduzidos nas “grandes telas”. Por conseguinte, ficam com uma outra visão distorcida e fragmentada de nossa formação e dos nossos problemas, aumentando assim a legião dos alienados, impotentes e incapazes de qualquer ação transformadora sobre a sociedade. E o pior que isto não se dá por acaso, pois tal quadro de alienação certamente interessa a alguns setores do Poder, uma vez que um povo alienado aceita até com docilidade as mais diferentes formas de submissão, de dominação, de exploração.
Os leitores já repararam como as camadas populares, suas lutas, seus heróis e seus anseios dificilmente aparecem nos livros de História?
Já notaram a omissão quanto à problemática de nossa dependência anterior e posteriormente ao 7 de setembro de 1822?
Será que as pessoas chegaram mesmo a perceber a íntima relação entre o enfraquecimento do Brasil e o fortalecimento de outras áreas do mundo(“desenvolvimento desigual”)?
Até que ponto temos realmente consciência das camuflagens coloridas com que tentam encobrir a persistente sobrevivência de nossos problemas estruturais? Até que ponto o que vêm fazendo com o Brasil desde 1964 tem contribuído para aprofundar essa dramática situação?
Enfim, em que contexto devemos pensar e situar o 7 de setembro de 1822? Tem sentido ficarmos com a idéia de que a independência já foi feita, reduzida a uma simples manifestação de vontade, num grande dia, por um “grande homem”?
Na verdade, o 7 de Setembro significou apenas um passo nos quadros de um processo ritmado a partir de fins do século XVIII com a conjuntura das conjurações (a Mineira em 1789 – 92, a do Rio de Janeiro de 1794, a Baiana ou  dos Alfaiates em 1798 e a dos Suassunas em 1801), acelerando o ritmo durante o período de D. João com a instalação do Estado Português no Brasil e as medidas que liquidaram o “pacto colonial” (1808 – 1821) e asseguraram a hegemonia Inglesa aqui dentro, tomando o processo rumo irreversível pela separação durante a regência de D. Pedro e a política recolonizadora das Cortes Portuguesas (1821 – 22), rompendo-se a contradição com o episódio do dia 7, e desdobrando-se em lutas, conchavos e apreensões durante todo o primeiro reinado até alcançar a sua maturação com a queda (abdicação) de D. Pedro I em 7 de Abril de 1831.
E como pano de fundo, agindo como impulsionador do processo em sua dinâmica externa, temos que levar em conta a emergência do capitalismo industrial (Revolução Industrial Inglesa). O capitalismo industrial acelera a crise do Antigo Sistema Colonial – do que éramos parte periférica – em virtude da necessidade de mercados, surgindo assim uma incompatibilidade estrutural entre a dinâmica do capitalismo industrial e a permanência ou restabelecimento do monopólio que caracterizara a nossa condição colonial. A independência (separação de Portugal) aparece assim como uma maneira de ajustar ou reajustar amplos mercados aos interesses do capital industrial inglês, centro da nossa dependência econômica até as primeiras décadas do século XX.
Pensar dessa forma não exclui o reconhecimento da existência de homens e mulheres movidos por nobres ideais de liberdade e transformações sociais num Brasil independente. No entanto, estes patriotas sinceros não foram os que tiveram a hegemonia na dinâmica interna do processo.  Assim, é claro que muitas pessoas participaram do desenrolar do processo em si, tanto os precursores como os que efetivamente o conduziram. Nossas classes dominantes (internamente dominantes, externamente dominadas) articularam com precisão os seus novos interesses no quadro das possibilidades que se abririam, como de fato se abriram, sem a presença de uma metrópole de intermediação leonina em suas transações. Perceberam o espírito da coisa? E, mais: para garantir o controle político sobre a nação, depois do 7 de setembro mantiveram a escravidão, o latifúndio, e estabeleceram que só poderiam votar ou ser votados aqueles que tivessem uma determinada renda anual resultante dos bens de raiz... Como se vê, os homens simples do Povo que participaram das lutas pela Independência (separação...) ficaram completamente excluídos, marginalizados, logo depois. Afinal, muito embora tenha significado um avanço em relação a nossa condição anterior, é bom lembrar que a independência (?) não foi feita para  povo como um todo, mas, sim, para assegurar e ampliar privilégios das minorias dominantes como acontece geralmente em todos os movimentos “vitoriosos” no Brasil. Em outras palavras, o povão sempre ajuda a fazer mas na hora de participar dos benefícios da mudança é posto de lado e se vê sempre obrigado a suportar o maior arrocho por parte dos que sobem ao poder.


   III

Prezados leitores: em meio a uma conjuntura política de tantos “ismos” e marcada por desvios éticos e desavergonhado cinismo, corrupção e impunidade, assolados por uma situação quase que de anomia pelo esgarçamento do tecido social respingado pelo sangue da violência e pelo fantasma da precarização do trabalho e do emprego, estressados pela insegurança e tensos com o recrudescimento das seqüelas das múltiplas dimensões da questão social país a fora, e por que não dizer? também felizes por alguns avanços sociais e pela conquista da auto-suficiência de petróleo pelos trabalhadores da PETROBRAS,  e ainda vivendo entre esperanças e preocupações com os mega-investimentos na região, eis que estamos sob os efeitos das comemorações do 7 de Setembro. São 190 anos de independência nos quadros de dependência! Porque me considero um patriota sincero, mais uma vez consegui colocar ao alcance público essas reflexões críticas para demonstrar, sem “patriotadas”, o meu profundo amor pelo Brasil. Às vezes é duro enfrentarmos a realidade. Mas não podemos viver de ilusões quanto ao presente e nem quanto ao passado, idealizando situações que nem sempre correspondem à realidade. Temos que ficar atentos para separarmos o joio do trigo com bastante clareza: o novo nome da dependência é o neoliberalismo e seus desdobramentos pós isso e aquilo...
Por último, em meio a tantas estórias, é preciso que cada um seja capaz de assumir a sua condição de sujeito para renegar a condição imposta de objeto da História. A História é Vida. E por ser vida, exige que cada um tenha coragem de dedicar a sua própria vida ao trabalho de construção e conquista da verdadeira Independência do Brasil que um dia há de chegar adornada de encanto sob o Sol de nova primavera, perfumada pelo vento da liberdade, da democracia plena em vivências reais, justiça e igualdade social, e conquistada pelas mãos de um povo tão cansado de sofrer, mas  que  sobrevive  e  resiste  porque  ainda  conserva  a  Esperança  de  viver  numa PÁTRIA LIVRE, MÁTRIA ADORADA E FRÁTRIA  DA FELICIDADE COMPARTILHADA!
*Hélio Coelho é Professor da Faculdade de Direito de Campos e da Universidade Federal Fluminense (Serviço Social de Campos ).
Da Academia Campista de Letras.


sábado, 1 de setembro de 2012


O encanto do Pontal e o avanço do mar

























A história da História Cultural, segundo Peter Burke
Diogo da Silva Roiz
BURKE, Peter. O que é história cultural? Tradução de Sérgio Goes de
Paula. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005, 191 p.






          O historiador francês Pierre Vilar, no início da década de 1970,escreveu um texto que se tornaria clássico, intitulado “História marxista,história em construção”, agrupado na obra coletiva organizada por PierreNora e Jacques Le Goff sob o título Fazer História, o qual inspirou o título desta resenha, uma vez que, tal como a história marxista, que nos anos1970 ainda estava em construção, a Nova História Cultural (NHC), no início do século XXI, segundo o autor do livro em análise, também estaria em processo de (re)construção. Assim, não é nenhuma surpresa constatar que um dos argumentos principais dessa obra de Peter Burke é o de que, nas últimas décadas, os estudos culturais (re)despertaram a atenção de pesquisadores em vários países.
     Nesse contexto, historiadores que privilegiavam temáticas econômicas e sociais passaram a dar maior atenção às questões culturais. O mesmo tem ocorrido com historiadores dos eventos políticos, que começam a se interessar pelo que é recentemente definido como “ cultura política”. Em meio a isso, se compreende porque, aqui e ali, intelectuais, até então herdeiros do marxismo, vêm se classificando como estudiosos da cultura e se vinculando ao que tem sido definido como a NHC.
      Esse amplo e diversificado movimento foi, para muitos, proveniente dos cismas causados pelas agitações que assinalaram o “Maio de 1968”, que na França se desdobrou, entre outras coisas, na emergência da História das Mentalidades. A partir dos anos 1980,esta área de estudos foi, por assim dizer, incorporada à NHC, um movimento que desbordou a França para afirmar-se como um conjunto de propostas, abordagens e procedimentos articulados entre a História, a Antropologia e a Crítica Literária, cujos eixos irradiadores mais significativos se localizaram também na França, na Inglaterra, na Itália, nos Estados Unidos e na Alemanha. Apesar da expansão verificada nos domínios da NHC, permanecem a pergunta básica: o que é História Cultural? O historiador inglês Peter Burke procurou justamente responder a esta pergunta, que dá título ao seu livro. Publicado originalmente em2004 na língua inglesa, ele foi dividido em seis capítulos. Neles, o autor analisa o aparecimento da História Cultural, seus problemas, suas relações com a Antropologia, aborda seus principais teóricos e conceitos fundamentais, procedimentos de pesquisa e, por fim, os desafios e perspectivas para os próximos anos.
      Como importante adendo, apresenta ainda uma lista de títulos, editados entre 1860 e 2003, que contribuem para traçar o percurso da História Cultural e entender seu desenvolvimento no tempo.
        De acordo com o autor, a  “história cultural (...) foi redescoberta nos anos 1970 (...) Desde então vem desfrutando de uma renovação, sobretudo no mundo acadêmico”. Com o propósito de explicar “não apenas a redescoberta, mas também o que é história cultural, ou melhor, o que os historiadores culturais fazem”, ele dá ênfase “às diferenças, aos debates e conflitos, mas também aos interesses e tradições compartilhados”, combinando, para isso, “duas abordagens opostas, embora complementares: uma delas interna, preocupada em resolver os sucessivos problemas no interior da disciplina, e outra externa, relacionando o que os historiadores fazem ao tempo em que vivem” (p. 7). Burke constata que houve uma redefinição nos estudos históricos enas abordagens e discussões teóricas, quando ocorreu a ascensão da História Cultural, por intermédio de uma ‘virada cultural’, na qual análises econômicas, políticas e sociais se aproximavam de termos e diagnósticos culturais. E, no limite, reavaliavam antigas questões sob novas designações , como “cultura da pobreza”, “cultura do medo”, “cultura das armas” etc. 
        Embora a pergunta sobre o que é a História Cultural tenha sido feita em 1897 por Karl Lamprecht, Burke observa que uma resposta satisfatória ainda não foi dada. Nesse caso, uma resposta ao problema colocado foi o deslocamento da atenção dos objetos para os métodos, a partir de um terreno comum: a preocupação com o simbólico e suas interpretações. Contudo, essa situação, segundo adverte o autor, tornou a História Cultural confusa, e uma alternativa seria rastrear a “história da história cultural”, que, para ele, se originou na Alemanha dos anos 1780 em diante. Antes disso, haveria mais histórias dispersas da Filosofia, da Literatura ou mesmo da pintura do que uma história cultural da humanidade propriamente dita. Daí Burke esboçar uma divisão da história da História Cultural em quatro fases: a “clássica”, a “história social da arte” iniciada nos anos 1930, o momento da descoberta da “história da cultura popular” na década de 1960 e o da NHC.
        No período clássico, estendido até 1950, encontrar-se-iam as obras de Jacob Burckhardt e Johan Huizinga. Essa fase perpassaria, e de fato coexistiria, conforme o autor, com a da “história social da arte”, na qual se situariam as obras de Max Weber, Norbert Elias, Aby Warburg, ErnstRobert Curtius, Ernst Gombrich e Erwin Panofsky. A rigor, uma virada nos estudos culturais se iniciou ainda nos anos 1930, nos Estados Unidos e na Inglaterra, vindo a se corporificar nas obras de Arnold Hauser, L. R. Leavis e Raymond Williams. Esses estudos culminaram na descoberta do povo nos anos 1960, principalmente nas obras de E. P. Thompson, Eric Hobsbawm e Christopher Hill. Dessa maneira, verifica-se que, a despeito de o autor apontar diferentes momentos no desenvolvimento da história da História Cultural, não deixa de destacar a coexistência de interesses, discussões e análises de uma fase para outra. Contudo, na sua reentrada na cena acadêmica dos anos 1970, a História Cultural permaneceu com problemas de abordagem, de fontes e de métodos. O conceito de cultura, por exemplo, continuou definido,argumenta Burke, de forma pouco operatória, e as investigações em torno da História Cultural, principalmente nos debates marxistas, ficavam, muitas vezes, como que “pairando no ar”. Um outro problema, observado pelo autor, é quanto à definição de “cultura popular” em oposição à “cultura erudita”. Tanto que, para Burke, “um dos aspectos mais característicos da prática da história cultural entre as décadas de 1960 e 1990 foi a virada em direção à antropologia” (p. 44), fundamentalmente devido aos problemas na definição do termo cultura, embora essa virada não se tenha limitado aos estudos culturais.
        De fato, “cada vez mais as questões culturais são apresentadas como explicação para mudanças no mundo político, como revoluções, formação dos Estados” (p. 47), o mesmo acontecendo nas análises de crises econômicas ou sociais. Burke salienta que, “de 30 anos para cá, ocorreu um deslocamento gradual no uso do termo pelos historiadores. Antes empregado para se referir à alta cultura, ele agora inclui também a cultura cotidiana, ou seja, costumes, valores e modos de vida. Em outras palavras, os historiadores se aproximaram da visão de cultura dos antropólogos” (p. 48). 
        Neste ponto, o autor faz referência aos antropólogos mais influentes e suas contribuições para a pesquisa histórica. Por outro lado, Burke lembra que houve, na década de 1970, o surgimento de um novo gênero histórico, a Micro-história, associada a um grupo de historiadores italianos, dentre os quais se destacam Carlo Ginzburg, Geovanni Levi e Edoardo Grendi. Ressalta que essa foi uma reação a um certo estilo de História Social, indo ao encontro da Antropologia e exprimindo a crescente desilusão com a “grande narrativa”.
       Paralelamente, o autor aborda outras temáticas importantes como as colocadas pelo pós-colonialismo — que encontraram especial ressonância na produção de Edward Said —, e pelo feminismo, destacando-se, aqui, as análises de Michelle Perrot e Georges Duby. Em ambos os casos, frise-se, as questões se centravam na luta pela independência, fosse ela cultural ou de gênero. Burke prossegue sua argumentação, perguntando se a NHC estabeleceria um “novo” paradigma. Afirma, então, que a “palavra ‘cultural’ distingue-a da história intelectual, sugerindo uma ênfase em mentalidades, suposições e sentimentos e não em idéias ou sistemas de pensamento” (p. 69). 
     Os principais teóricos dessa linha investigativa como sugere o autor, seriam Mikhail Bakhtin, Norbert Elias, Michel Foucault e Pierre Bourdieu: “juntos, esses quatro teóricos levaram os historiadores culturais a se preocuparem com as representações e as práticas, os dois aspectos característicos da NHC, segundo um de seus líderes, Roger Chartier” (p. 78). Depois de se debruçar mais atentamente sobre o papel desempenhado por esses historiadores, o autor conclui que “aconteceu um deslocamento ou uma virada coletiva na teoria e na prática da história cultural. (...) uma mudança de ênfase, mais que a ascensão de alguma coisa nova, uma reforma da tradição, mais que uma revolução, mas, afinal, a maior parte das inovações culturais acontecem dessa maneira” (p. 98). 
         Não foi por acaso que, em muitos casos, da ideia de representação passou-se a dar maior atenção à de construção, seja da realidade cotidiana ou das manifestações artísticas e simbólicas como a pátria e a nação. Burke destaca que as idéias de  performance e desconstrução foram importantes nessa redefinição de interesses e abordagens nas pesquisas. Todavia, no seu entender, embora os estudos culturais tenham sido de grande valia para se reavaliar as ações e as atitudes dos homens e das sociedades no tempo, a expressão Nova História Cultural, que apareceu nos anos 1980, começa a demonstrar sinais de esgotamento. Para o autor, poder-se-ia pensar três cenários alternativos: um “’retorno a Burckhardt’, “usando o nome como uma espécie de síntese, um símbolo para o renascer da história cultural tradicional”; outro seria “a expansão contínua da nova história cultural para outros domínios”; e, por fim, “a reação contra a redução construtivista da sociedade em termos de cultura, o que pode ser chamado de ‘a vingança da história social’” (p. 132). 
             De leitura fluente e agradável, o livro de Peter Burke nos oferece um abrangente painel do desenvolvimento da história da História Cultural (seja como for, ainda em construção). No entanto, o leitor pode chegar ao final da obra com a pergunta: será possível definir todo o agir humano em termos de ações culturais? Por outro lado, vale sublinhar que, se de fato muitos intelectuais que se diziam herdeiros diretos do marxismo hoje se classificam como historiadores culturais, muitos outros historiadores permanece(ra)m fiéis às suas posições originais. Tal foi o caso de Ernest Labrousse, François Furet e Pierre Vilar, na França, de Ellen M. Wood, nos Estados Unidos, ou ainda de E. P. Thompson, Raymond Williams, Christopher Hill, Eric J. Hobsbawm e Perry Anderson. Estes últimos, historiadores marxistas ingleses dissidentes do Partido Comunista nos anos 1950, à época das revelações das atrocidades cometidas por Stalin, nem por isso romperam com seus ideais. Mantiveram-se criativos ao tentarem uma síntese (se é que isso é possível) entre os modelos clássicos de interpretação e transformação das sociedades e os ‘novos’ modelos, associados à NHC (nesse particular, destaquem-se Carlo Ginzburg, Terry Eagleton ou mesmo Cornélius Castoriadis, François Dosse e Michel Vovelle).
       Além do mais, se, aparentemente, a NHC ocupa parte ponderável dos estudos e pesquisas hoje desenvolvidos nas universidades, no campo da História, os novos influxos da produção historiográfica não se limitaram a ela. Não se pode ignorar que a História Econômica tem sido revista e renovada em muitos países, do mesmo modo como a História Política e a História das Idéias passam por transformações Isso tudo acena para a possibilidade, quem sabe, de diálogos frutíferos entre essas subáreas do conhecimento, sem que tal aproximação deva conduzir ao escamoteamento de suas divergências.
℘
Resenha recebida em abril de 2007. Aprovada em novembro de 2007.







segunda-feira, 20 de agosto de 2012


22 de agosto é o dia do Folclore brasileiro!!!


O que é Folclore?


Podemos definir o folclore como um conjunto de mitos e lendas que as pessoas passam de geração para geração. Muitos nascem da pura imaginação das pessoas, principalmente dos moradores das regiões do interior do Brasil. Muitas destas histórias foram criadas para passar mensagens importantes ou apenas para assustar as pessoas. O folclore pode ser dividido em lendas e mitos. Muitos deles deram origem à festas populares, que ocorrem pelos quatro cantos do país.
As lendas são estórias contadas por pessoas e transmitidas oralmente através dos tempos. Misturam fatos reais e históricos com acontecimentos que são frutos da fantasia. As lendas procuraram dar explicação a acontecimentos misteriosos ou sobrenaturais.
Os mitos são narrativas que possuem um forte componente simbólico. Como os povos da antiguidade não conseguiam explicar os fenômenos da natureza, através de explicações científicas, criavam mitos com este objetivo: dar sentido as coisas do mundo. Os mitos também serviam como uma forma de passar conhecimentos e alertar as pessoas sobre perigos ou defeitos e qualidades do ser humano. Deuses, heróis e personagens sobrenaturais se misturam com fatos da realidade para dar sentido a vida e ao mundo.

Algumas lendas, mitos e contos folclóricos do Brasil:


Boitatá


Representada por uma cobra de fogo que protege as matas e os animais e tem a capacidade de perseguir e matar aqueles que desrespeitam a natureza. Acredita-se que este mito é de origem indígena e que seja um dos primeiros do folclore brasileiro. Foram encontrados relatos do boitatá em cartas do padre jesuíta José de Anchieta, em 1560. Na região nordeste, o boitatá é conhecido como "fogo que corre".


Boto


Acredita-se que a lenda do boto tenha surgido na região amazônica. Ele é representado por um homem jovem, bonito e charmoso que encanta mulheres em bailes e festas. Após a conquista, leva as jovens para a beira de um rio e as engravida. Antes de a madrugada chegar, ele mergulha nas águas do rio para transformar-se em um boto.


Curupira

Assim como o boitatá, o curupira também é um protetor das matas e dos animais silvestres. Representado por um anão de cabelos compridos e com os pés virados para trás. Persegue e mata todos que desrespeitam a natureza. Quando alguém desaparece nas matas, muitos habitantes do interior acreditam que é obra do curupira.


Lobisomem

Este mito aparece em várias regiões do mundo. Diz o mito que um homem foi atacado por um lobo numa noite de lua cheia e não morreu, porém desenvolveu a capacidade de transforma-se em lobo nas noites de lua cheia. Nestas noites, o lobisomem ataca todos aqueles que encontra pela frente. Somente um tiro de bala de prata em seu coração seria capaz de matá-lo.



Mãe-D'água


Encontramos na mitologia universal um personagem muito parecido com a mãe-d'água : a sereia. Este personagem tem o corpo metade de mulher e metade de peixe. Com seu canto atraente, consegue encantar os homens e levá-los para o fundo das águas.



Corpo-seco


É uma espécie de assombração que fica assustando as pessoas nas estradas. Em vida, era um homem que foi muito malvado e só pensava em fazer coisas ruins, chegando a prejudicar e maltratar a própria mãe. Após sua morte, foi rejeitado pela terra e teve que viver como uma alma penada.



Pisadeira

É uma velha de chinelos que aparece nas madrugadas para pisar na barriga das pessoas, provocando a falta de ar. Dizem que costuma aparecer quando as pessoas vão dormir de estômago muito cheio.


Mula-sem cabeça

Surgido na região interior, conta que uma mulher teve um romance com um padre. Como castigo, em todas as noites de quinta para sexta-feira é transformada num animal quadrúpede que galopa e salta sem parar, enquanto solta fogo pelas narinas.


Mãe-de-ouro

Representada por uma bola de fogo que indica os locais onde se encontra jazidas de ouro. Também aparece em alguns mitos como sendo uma mulher luminosa que voa pelos ares. Em alguns locais do Brasil, toma a forma de uma mulher bonita que habita cavernas e após atrair homens casados, os faz largar suas famílias.


Saci-Pererê

O saci-pererê é representado por um menino negro que tem apenas uma perna. Sempre com seu cachimbo e com um gorro vermelho que lhe dá poderes mágicos. Vive aprontando travessuras e se diverte muito com isso. Adora espantar cavalos, queimar comida e acordar pessoas com gargalhadas.


Curiosidades:

- É comemorado com eventos e festas, no dia 22 de Agosto, aqui no Brasil, o Dia do Folclore.
- Em 2005, foi criado do Dia do Saci, que deve ser comemorado em 31 de outubro. Festas folclóricas ocorrem nesta data em homenagem a este personagem. A data, recém criada, concorre com a forte influência norte-americana em nossa cultura, representanda pela festa do Halloween - Dia das Bruxas.
- A palavra folclore é de origem inglesa. A termo "folk", em inglês, significa povo, enquanto "lore" significa cultura.
- Muitas festas populares, que ocorrem no mês de Agosto, possuem temas folclóricos como destaque e também fazem parte da cultura popular.


Criação da data

O Congresso Nacional Brasileiro, oficializou em 1965 que todo dia 22 de agosto seria destinado à  comemoração do folclore brasileiro. Foi criado assim o Dia do Folclore Nacional. Foi uma forma de valorizar as histórias e personagens do folclore brasileiro. Desta forma, a cultura popular ganhou mais importância no mundo cultural brasileiro e mais uma forma de ser preservada. O dia 22 de agosto é importante também, pois possibilita a passagem da cultura folclórica nacional de geração para geração.


Comemoração

O Dia 22 de agosto é marcado por várias comemorações em todo território nacional. Nas escolas e centrou culturais são realizadas atividades diversas cujo objetivo principal é passar a diante a riqueza cultural de nosso folclore. Os jovens fazem pesquisas, trabalhos e apresentações, destacando os contos folclóricos e seus principais personagens. É o momento de contarmos e ouvirmos as histórias do Saci-Pererê, Mula-sem-cabeça, Curupira, Boto, Boitatá, etc.
Nesta data, também são valorizadas e praticadas as danças, brincadeiras e festas folclóricas.


Brincadeiras do Folclore


O que são?

Além dos contos, danças, festas e lendas, o folclore brasileiro é marcado pelas tradicionais brincadeiras. As brincadeiras folclóricas são aquelas que passam de geração para geração. Muitas delas existem há décadas ou até séculos. Costumam sofrer modificações de acordo com a região e a época, porém, a essência das brincadeiras continua a mesma da origem.
Grande parte das brincadeiras folclóricas envolve disputas individuais ou em grupos. Possibilitam também a integração e o desenvolvimento social e motor das crianças.

A preservação destas brincadeiras é muito importante para a manutenção da cultura folclórica. Por isso, são muito praticadas, principalmente, durante o mês de agosto que é destinado ao folclore.




Jogos, brincadeiras e brinquedos do folclore:



- Soltar pipa: as pipas, também conhecidas como papagaios, são feitas de varetas de madeira e papel. Coloridas, são empinadas (soltadas) pelos meninos em dias de vento. Com uma linha, os garotos conseguem direcionar e fazer malabarismos no céu.


- Estilingue: também conhecidos como bodoques, são feitos de galhos de madeira e borracha. Os meninos usam pedras para acertar alvos (latas, garrafas e outros objetos). 


- Pega-pega: esta brincadeira envolve muita atividade física. Uma criança deve correr e tocar outra. A criança tocada passa  ter que fazer o mesmo.


- Esconde-esconde: o objetivo é se esconder e não ser encontrado pela criança que está procurando. A criança que deverá procurar deve ficar de olhos tapados e contar até certo número enquanto as outras se escondem. Para ganhar, a criança que está procurando deve encontrar todos os escondidos e correr para a base. 


- Bola de gude: coloridas e feitas de vidro, são jogadas no chão de terra pelos meninos. O objetivo é bater na bolinha do adversário para ganhar pontos ou a própria bola do colega.


- Boneca de pano: feitas pelas mães e avós, são usadas em brincadeiras pelas meninas para simular crianças integrantes de uma família imaginária.


- Pião: a brincadeira de pião ainda faz muito sucesso, principalmente, nas regiões do interior do Brasil. Feitos de madeira, os piões são rodados no chão através de um barbante que é enrolado e puxado com força. Muitas crianças pintam seus piões. Para deixar mais emocionante a brincadeira, muitos meninos fazem malabarismo com os piões enquanto eles rodam. O mais conhecido é pegar o pião com a palma da mão enquanto ele está rodando.


Leia mais: http://www.suapesquisa.com/folclorebrasileiro/folclore.htm


Folclore de São João da Barra:


 São João da Barra  passa de geração a geração a sua rica cultura  através  das festas e das danças folclóricas desde os tempos da colonização portuguesa. São diversas manifestações culturais da população local.

Temos também: a mulher de branco, o boto, a mulher do mangue, a moça bonita, a árvore que anda (no Pontal de Atafona) além das brincadeiras como  amarelinha, ciranda, pula corda, empinar pipa, entre outras.


LENDA DA MOÇA BONITA DO MANGUE 

Por Roberto Pinheiro Acruche



Moça Bonita, seu moço,
nunca terá otra iguá,
qui nem aquela, seu moço
perdida no manguezá.

Ela vistida di branco
qui inté parece voá
num tem sarto, nem tumanco
mermo assim vem pesseá.

É uma pena, seu moço,
dá inté dó, so ni pensá,
vê a tom bela, seu moço
suzinha lá no lugá...

Foi di inveja i di mardade
qui fizeram isso cum ela,
si num forse a verdade...
ninguém sabia mais dela.

Quem qui faz má, aqui paga,
i vija qui acunteceu:
Elda murreu aforgada,
Ilde no hospiço murreu.

Mas essa história, seu moço,
Pode mermo acreditá
Num é inventada, seu moço,
Acunteceu no lugá.

Mangue da Moça Bonita
cumeçou a se chamá
purque a Moça Bonita
nunca mais saiu di lá.

Só nu chegá da noitinha
vosmicê podi í olhá,
di vistimenta branquinha,
Moça Bonita ta lá.

Fonte: http://robertoacruche.blogspot.com.br/2010/03/mangue-da-moca-bonita.html




domingo, 19 de agosto de 2012



19 de Agosto - Dia do Historiador



A proposta de homenagear os historiadores é de autoria do senador Cristovam Buarque (PDT-DF), um dos políticos mais capacitados para falar de educação neste país. Inicialmente, a data escolhida foi o dia 12 de setembro. Mas ai, foi proposta uma emenda, aprovada pela comissão, que alterava a data para 19 de agosto. Isso tudo foi registrado na LEI Nº 12.130, DE 17 DE DEZEMBRO DE 2009.

O objetivo era aproveitar a data para homenagear Joaquim Nabuco, que nasceu no dia 19 de agosto de 1849. Nabuco, para quem gosta de História do Brasil, foi um dos maiores abolicionistas deste país. Também foi político, diplomata, jurista, jornalista, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e também Historiador.

Para homenagear a data de hoje, coloco aqui um trecho da justificativa do senador para criar o Dia do Historiador:

"Um povo sem história é um povo sem memória. Essa afirmação, mais que um dito já popular, é também uma verdade histórica, pois todos os agrupamentos humanos que não preservaram sua memória - em histórias, documentos, objetos de arte e arquitetura - acabaram sucumbindo a ditaduras e até acabaram por desaparecer da face da Terra.

Por essa razão, não apenas a disciplina que trata das histórias dos povos deve merecer nossa atenção, mas também os cientistas que se dedicam a essa tarefa tão nobre. Obviamente, a história se faz por seus protagonistas: lideranças políticas, religiosas e econômicas, por um lado; grupos populares, lutas contra a opressão e pela libertação, por outro. E para registrar tudo, o historiador.

E de tal modo é importante o papel dos historiadores que, por vezes, eles ajudam, também, a reconfigurar a história de um País. Ao lado da Filosofia e da Literatura, a História está presente desde os primeiros momentos da nossa tradição ocidental, constituindo um dos saberes mais antigos de nossa civilização."

Meus parabéns a todos os colegas Historiadores!